Jornal Gazeta Parintins

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Boi de negro: negro, negritude e negragens

postado em 03/07/2018
Boi de negro: negro, negritude e negragens

 

 

***Daniel Brandão

 

 

“É história, é memória praticada

No Mocambo ou refúgio, o sofrimento a superar

Escravos livres, libertos, esquecimento

Ocultamento, o silêncio no Amazonas a esvaziar […]”

(Consciência Negra – Boi Garantido – Paulinho Du Sagrado).

 

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O Festival Folclórico de Parintins é conhecido mundialmente por ser a maior expressão e representação da cultura popular do povo parintintin e dos povos amazônidas, onde reúne as figuras do caboclo, do negro e do índio, sujeitos essenciais na formação da grande Amazônia.

 

 

Antes de iniciarmos esse diálogo, chamo a atenção do leitor para a conceituação e terminologia que utilizamos historicamente. Isto é, caracterizamos o afrodescendente e toda cultura da matriz africana como “negro”, pessoa da pele escura, de descendência da grande mãe África e que no Brasil foi feito de escravo. Saliento que o termo remete ainda ao período colonial, onde este povo foi escravizado, surrado e humilhado, utilizado como mão-de-obra barata para o enriquecimento de uma minoria correspondente aos grandes cafeicultores. O “negro” é também utilizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, para suas pesquisas e sensos, no entanto, carrega ainda o teor preconceituoso e discriminatório da palavra e da história. Este povo, sujeitos históricos e essenciais para a formação brasileira reconhece-se como “preto”, não devido a sua tonalidade de pele, mas ao exemplo de força, resistência e ancestralidade de seu povo, de sua história e cultura.

 

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Em 2018, o Festival Folclórico de Parintins foi marcado pela grande e massiva exaltação folclórica ao preto, afro descendência, religiões de matrizes africanas e a culturalidade das minorias discriminadas e relegadas a margem da sociedade. Um exemplo a ser seguido, ambos os bois realizaram em suas exaltações folclóricas momentos de grande emoção ao relembrarem por diversos momentos o sofrimento de um povo, que outrora viveu esquecido.

 

 

Anos após a Lei Áurea, que aparentemente deu liberdade aos pretos afro-brasileiros, no entanto, não permitiu qualidade de vida ou dignidade, é necessário ainda propor espaços de reflexão sobre as condições que estes brasileiros estão sujeitos – e impostos. Que não seja restrito a eventos de grande visibilidade, mas que faça-se parte das discussões nos mais diversos espaços sociais.

 

 

Nesta edição do Festival Folclórico de Parintins, o Boi Caprichoso e o Boi Garantido foram campeões na luta contra a discriminação e representação das minorias sociais. Viva o Boi de Negro, viva a Consciência Negra, via o preto, viva o índio, viva o caboclo, viva o branco, viva o pardo, viva os bois de Parintins.

 

 

 

***Fotógrafo, repórter, repórter fotográfico e graduando em Licenciatura em Pedagogia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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